Cabo Delgado acolhe mesa-redonda sobre a retoma do projecto LNG e o impacto nas comunidades

Pemba acolheu, nesta terça-feira, 21 de abril de 2026, uma mesa-redonda dedicada à auscultação sobre o impacto da retoma do projecto Mozambique LNG na população. O encontro reuniu diversas individualidades do Governo, do sector privado, organizações da sociedade civil e comunidades locais.

A iniciativa teve como principal objectivo recolher sensibilidades sobre os impactos do regresso das operações do projecto, bem como identificar desafios e oportunidades para a população de Cabo Delgado, sobretudo no contexto do conflito armado, com especial atenção à juventude.

O Provedor de Justiça, Isaque Chande, manifestou a expectativa de que o projecto promova a transferência de conhecimento, crie espaço para o desenvolvimento de pequenas e médias empresas e gere postos de trabalho para os jovens, funcionando como um catalisador da economia nacional. 

Defendeu ainda que a população local deve sentir-se parte integrante do projecto, beneficiando de assistência humanitária nos termos da lei e tendo os seus direitos assegurados.

Chande apelou igualmente às entidades gestoras do projecto, ao Governo e às organizações da sociedade civil para reforçarem a ligação com as comunidades, criando espaços de diálogo e encontrando soluções concretas para responder às suas necessidades. 

Acrescentou que a inclusão da população é essencial para evitar sentimentos de exclusão e a percepção de que o projecto não contribui para a melhoria das suas condições de vida.

Por sua vez, o presidente do FOCADE em Cabo Delgado, Gerson Malute, destacou que o verdadeiro impacto do projecto dependerá da capacidade de integrar a população local, defendendo que 60% dos empregos sejam ocupados por residentes da província. 

Sublinhou ainda que as mulheres representam mais de 50% da população, mas continuam sub-representadas nos sectores formais da economia, propondo que pelo menos 30% da participação em consultas comunitárias e programas de desenvolvimento seja feminina.

Malute frisou que a retoma do projecto LNG não é apenas uma iniciativa económica, mas também um teste estrutural à forma como Moçambique gere o seu próprio desenvolvimento. Alertou que grandes projectos extractivos não garantem automaticamente desenvolvimento sustentável, podendo, pelo contrário, gerar desigualdades, frustração social e instabilidade quando não acompanhados por mecanismos sólidos de governação.

Na mesma linha, Albachir Macassar, presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, afirmou que o gás pode ser um catalisador do desenvolvimento, desde que acompanhado por instituições fortes, mecanismos eficazes e confiança social. Avançou a necessidade de alinhar políticas públicas, comportamentos empresariais e expectativas sociais para garantir estabilidade e progresso.

Entre as participantes, Sauta Fadil destacou a fraca competitividade das mulheres de Cabo Delgado em relação a outras províncias, defendendo a necessidade de investir na sua capacitação para que possam competir em igualdade de oportunidades no projecto. Alertou que, sem essa preparação, mulheres de outras regiões poderão beneficiar mais das oportunidades existentes.

Por seu turno, Swinquen Ana Mário apelou para que as mulheres da província assumam um papel de liderança, não apenas por uma questão de igualdade de género, mas também devido ao contexto do conflito armado que afecta a região. Defendeu que o projecto deve dar especial atenção às mulheres, garantindo recursos e financiamento para iniciativas que promovam o seu desenvolvimento e autonomia económica.

A mesa-redonda decorreu num momento considerado crucial para Cabo Delgado, sendo vista como uma oportunidade histórica, mas também um desafio, para assegurar que os benefícios do projecto LNG sejam inclusivos e contribuam efectivamente para o desenvolvimento sustentável da província. (Maria Forquilha)

Post a Comment

0 Comments