No centro de reassentamento de Nanlia, no distrito de Metuge, província de Cabo Delgado, a população deslocada enfrenta actualmente condições de vida cada vez mais difíceis, marcadas pela falta de assistência alimentar, escassez de serviços básicos e tensões com as comunidades locais.
Os deslocados dos ataques terroristas relatam que, desde a suspensão do apoio alimentar por parte do Programa Mundial de Alimentação (PMA), há cerca de um ano, a sobrevivência passou a depender quase exclusivamente do trabalho nas machambas. No entanto, essa actividade não tem sido suficiente para garantir a segurança alimentar das famílias.
A senhora Fátima, mãe, uma das moradoras de Nanlia, afirma que a situação piorou significativamente após o fim da assistência. “Desde que suspenderam o apoio alimentar, a vida não está nada fácil, principalmente na alimentação”, disse, acrescentando que muitas famílias passam dificuldades diariamente.
Diante deste cenário, alguns residentes já ponderam abandonar o reassentamento e regressar às suas zonas de origem, como Macomia, Quissanga e Mocímboa da Praia, mesmo com os riscos associados.
Além da falta de alimentos, a população denuncia a ausência de apoio institucional e de colaboração por parte das autoridades locais. Segundo os relatos, há também conflitos com os nativos da aldeia, que se intensificaram após o fim da assistência humanitária.
“Já não temos boa convivência. Muitas vezes somos maltratados e até mandados embora pelos donos das terras”, contou um deslocado, pai e chefe de família que apenas se identificou como Abudo.
O acesso à água é outro problema crítico na zona onde estão reassentas as famílias vítimas do terrorismo em Nanlia. Com o sistema de abastecimento avariado e sem manutenção, as famílias recorrem a um rio e a pequenos furos tradicionais a meio de risco de saúde. A água consumida é partilhada com animais durante a noite, o que representa sérios riscos à saúde pública.
Na área da saúde, a situação também é preocupante. As brigadas móveis que anteriormente prestavam assistência deixaram de visitar o reassentamento, e os serviços nas unidades sanitárias próximas são considerados insuficientes pela população.
Os fugitivos dos chamados alshababs, apontam ainda a falta de insumos agrícolas e outros apoios que anteriormente eram fornecidos por parceiros humanitários. Sem esses recursos, a produção nas machambas torna-se cada vez mais limitada.
As práticas culturais locais, incluindo rituais tradicionais, têm gerado tensões com a comunidade anfitriã, agravando ainda mais a convivência entre os grupos. Embora as práticas têm sido comum um pouco por toda a província de Cabo Delgado, mas aqui não é o caso.
Perante este conjunto de dificuldades insegurança alimentar, falta de água potável, serviços de saúde precários e conflitos sociais os deslocados de Nanlia afirmam não estar a viver em condições dignas, sobretudo quando muitos relatam ameaças constantes de expulsão, roubos nas machambas e até acusados de propagar as doenças diarreicas, incluindo a cólera.
Os deslocados de Nanlia exigiram atenção urgente das autoridades e parceiros humanitários, sob risco de agravamento das condições de vida e aumento do êxodo das famílias afectadas às suas zonas que ainda estão a registar movimentos terroristas ainda que não seja em grande escala quando comparado com os anos anteriores. (Seven Mussa)

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