Fecalismo a céu aberto ainda preocupa moradores no bairro Wakateia na Ilha de Moçambique


No distrito da Ilha de Moçambique, na zona continental, concretamente no bairro de Wakateia, moradores enfrentam sérias dificuldades de saneamento básico, situação que tem levado grande parte da população a recorrer ao fecalismo a céu aberto.

A principal causa apontada pelos residentes é a impossibilidade de construção de latrinas devido às condições do solo. Segundo relatos, sempre que se escavam covas para esse fim, estas acabam por encher de água, inviabilizando qualquer tentativa de construção de sanitários convencionais.

Eva Fortuna, uma das moradoras, explica que a prática do fecalismo ao ar livre resulta da falta de alternativas. “As pessoas fazem fecalismo ao céu aberto porque não têm latrinas nos seus quintais. Isso acaba por provocar doenças como cólera e malária. O governo já proibiu essa prática, mas sem condições é difícil cumprir”, afirmou.

Na mesma linha, Muaziza Amisse denuncia o que considera ser abandono por parte das autoridades. “Vieram aqui fazer levantamento para construção de latrinas e prometeram sanitários melhorados, mas nunca mais voltaram. Não sabemos o que aconteceu. Não fazemos no mato porque queremos, mas porque não temos outra opção”, disse.

Já Flávia Laurentino acrescenta que, além da falta de infraestruturas, houve pedidos de contribuição financeira à população. “Pediram 700 meticais para ajudar na construção de latrinas, mas até agora não vimos nada. Enquanto isso, continuamos expostos a doenças, porque as necessidades são feitas no mato e isso contamina o ambiente e a água”, lamentou.

Os riscos à saúde são uma preocupação constante. Moradores relatam que a ausência de latrinas contribui para a propagação de doenças como diarreia, cólera e malária. Além disso, a presença de animais como galinhas nos locais contaminados agrava a situação, aumentando o risco de contaminação alimentar.

Mariamo Mussa reforça que a prática não é por escolha, mas por necessidade. “Não é costume. As pessoas fazem isso porque não têm latrinas. O governo fala para construir, mas na prática não vemos apoio”, afirmou.

Por sua vez, Izak Mainesse destaca que mesmo quando há iniciativas individuais, as latrinas precárias não resistem às condições locais. “As casas de banho desabam facilmente por causa da água. Quando chove, tudo fica pior. Sem apoio para construir sanitários adequados, a população acaba voltando ao fecalismo ao céu aberto”, explicou.

O entrevistado acrescenta ainda que, embora existam campanhas de sensibilização por parte do governo e líderes comunitários, estas não são suficientes sem soluções concretas. “A população ouve, mas não tem meios. Se houvesse casas de banho públicas ou apoio na construção de latrinas melhoradas, a situação poderia mudar”, sugeriu.

A situação no bairro Wakateia evidencia os desafios persistentes no acesso ao saneamento básico em algumas regiões do país, onde fatores naturais, económicos e institucionais dificultam a implementação de soluções sustentáveis. Enquanto isso, a saúde pública e o meio ambiente continuam em risco. (Fátima Abacar)

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