Grito de socorro dos profissionais de saúde de Muidumbe

Vivemos tempos em que é mais fácil perseguir um funcionário do que consertar uma ambulância. É mais fácil calar quem denuncia do que comprar um pneu. É mais fácil nomear um parente do que abrir um concurso público. Isto é um pouco de tudo que acontece hoje no seio do SDSMAS de Muidumbe em Cabo Delgado.

E o mais grave: aparentemente ninguém está preocupado com isso. As ambulâncias quando avariam, ficam meses à espera de peça, de verba, de autorização. Enquanto isso, a parturiente espera. O acidentado espera. O doente grave espera. E muitas vezes, morre esperando.

Afinal a crise não é só de viaturas. É de gente. É  de gestão dos profissionais de saúde que relatam viver sob pressão extrema, assédio moral e medo de falar. Há quem diga, em desespero, que já depende do álcool para conseguir entrar ao serviço e "aguentar" a má gestão propositada para tirar vantagens pessoais ou particulares.

Há quem já pense em desistir da própria vida por não ver saída, isso porque entre quem fere e o ferido, um deles tem saída e outro. Pior ainda ninguém ousa ouvir, consolar, esclarecer quem deve sempre esperar pela melhoria.

Isso não é falta de vocação. Isso é falta de gestão. Isso é o resultado de uma administração que trocou a responsabilidade pelo autoritarismo, a transparência pelo favoritismo, e a saúde pública pelo silêncio.

Onde estão os responsáveis? E há mais perguntas que não querem é nem podem calar, onde está a fiscalização? Onde está a Direcção Provincial de Saúde? Onde está o Governo Provincial de Cabo Delgado, onde estão os inspetores?

Porque até agora, o silêncio é ensurdecedor. Há suposta inspeção, até digamos passeata e justificação de ajudas de custo, mas não há resultados. Não há auditoria. Não há resposta.  

Dá impressão de que em Muidumbe, um dos pontos de Cabo Delgado a má gestão virou rotina e ninguém se importa enquanto não aparecer no telejornal.

Contudo é de tudo, o povo de Muidumbe vê. O povo sente. O povo morre, mas infelizmente não pode fazer nada senão assumir as consequências. Precariedade dos serviços de saúde em função dos funcionários estressados, desmotivados e relegados ao não são qualquer coisa, nós é que estamos no poder.

O que exigimos é básico. Exigimos ambulâncias com manutenção em dia, porque vida não espera. Exigimos concursos públicos transparentes, porque mérito não pode ser crime.  

Exigimos fim das perseguições, porque trabalhar com medo não salva ninguém.  Exigimos gestores por competência, não por sobrenome.  

Exigimos apoio psicológico imediato para os profissionais que já estão a pensar em desistir da vida e àqueles que sobrevivem na base do álcool.

A saúde é direito constitucional. O funcionário de saúde também é gente. Se os gabinetes em Pemba e Maputo não estão preocupados com Muidumbe, é para o povo de Muidumbe se preocupar por si? Porque calar hoje é ser cúmplice da tragédia de em curso e que pode ir até amanhã gritamos "Chega de má gestão. Chega de silêncio. Muidumbe merece respeito e que as coisas no SDAMAS mudem desde já". (Dos funcionários de saúde- Muidumbe)

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