Intolerância religiosa em Angoche: dois muçulmanos mortos após supostamente recusarem contribuições para rituais contra sua fé

Foto: Gazeta Arabe

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Conflito de natureza religiosa terá culminado em espancamentos mortais, profanação do corpo de um teólogo, impedimento de um funeral islâmico e incêndio de uma mesquita, segundo informações divulgadas pela Gazeta Árabe.

Dois muçulmanos foram mortos na sequência de um conflito relacionado com a recusa de contribuir financeiramente para a realização de rituais de curandeirismo, na localidade de Napruma, Posto Administrativo de Nametoria, distrito de Angoche, província de Nampula.

De acordo com informações recolhidas pela Gazeta Árabe junto de fontes no distrito de Angoche, as vítimas eram um Álimo (teólogo islâmico), também referido como Sheikh, e outro muçulmano. Ambos terão sido brutalmente espancados até à morte por um grupo de moradores alegadamente interessado na realização de rituais tradicionais destinados, segundo a descrição das fontes, a reforçar espiritualmente a comunidade.

Segundo as informações divulgadas, um grupo de moradores de Napruma decidiu procurar os serviços de um curandeiro, numa iniciativa associada à crença de que, quando alguém morre na comunidade, deve ser identificado um eventual responsável pela morte. As fontes relatam que pessoas que enriqueceram durante determinado ano terão sido, em algumas situações, acusadas de provocar mortes para alcançar prosperidade financeira.

No âmbito dessa iniciativa, os moradores terão decidido contribuir com determinadas quantias para pagar os serviços do curandeiro. Contudo, um grupo de muçulmanos monoteístas recusou participar financeiramente, alegando razões de doutrina religiosa.

A recusa provocou desentendimentos entre os dois grupos. De acordo com as mesmas fontes, os defensores da realização dos rituais recorreram às autoridades comunitárias para reclamar da posição dos muçulmanos que não aceitaram contribuir.

As autoridades comunitárias terão recomendado que as partes procurassem uma solução para o diferendo, mas, segundo os relatos recebidos, a situação não foi resolvida. Posteriormente, o grupo favorável aos rituais terá recorrido à violência, culminando no espancamento mortal de dois muçulmanos.

Corpo do teólogo terá sido impedido de receber funeral islâmico

Um dos episódios mais graves relatados diz respeito ao tratamento dado ao corpo do Álimo, que, segundo as informações divulgadas, foi morto por se recusar a contribuir com dinheiro para o curandeiro.

A Delegação Distrital do Conselho Islâmico em Angoche informou à Gazeta Árabe que, numa primeira fase, o corpo do teólogo permanecia na residência onde teria sido brutalmente espancado, enquanto um grupo de moradores impedia a realização do funeral islâmico.

As mesmas informações indicam que o corpo apresentava ferimentos provocados pelas agressões e que a permanência prolongada no local já causava um cheiro desagradável.

Os muçulmanos monoteístas da localidade terão sido expulsos ou obrigados a fugir perante a fúria de parte da população, ficando impossibilitados de realizar as cerimónias fúnebres de acordo com os seus preceitos religiosos.

Posteriormente, segundo outro relato divulgado pela Gazeta Árabe, um grupo de muçulmanos da localidade de Luazi, também situada no Posto Administrativo de Nametoria, deslocou-se para tentar sepultar o corpo do teólogo. No entanto, o grupo terá voltado a ser impedido de realizar o funeral.

As informações acrescentam que o corpo terá sido retirado e colocado numa fossa, numa acção descrita pelas fontes como uma grave humilhação do falecido e uma violação dos ritos funerários islâmicos.

Mesquita incendiada e fiéis obrigados a refugiar-se

A violência terá também atingido o espaço de culto da comunidade muçulmana. Segundo os relatos recebidos pela Gazeta Árabe, uma mesquita em Napruma foi incendiada no contexto dos confrontos.

Perante o agravamento da situação, vários muçulmanos monoteístas terão abandonado a localidade e procurado refúgio em zonas vizinhas, onde permaneceriam escondidos por receio de novos ataques.

 

As fontes descrevem o ambiente como extremamente tenso, afirmando que as autoridades comunitárias já não conseguiam controlar a situação.

O que inicialmente terá começado como uma divergência sobre a participação financeira em rituais de curandeirismo transformou-se, segundo os relatos, num episódio de violência que inclui duas mortes, impedimento de funerais religiosos, profanação de um corpo e destruição de um local de culto.

As informações divulgadas referem ainda um incidente envolvendo uma vaca pertencente ao irmão do teólogo falecido, que estaria sob os cuidados de terceiros.

Segundo o relato, após os acontecimentos relacionados com o funeral, um grupo terá tomado o animal, abatido a vaca e distribuído a carne pelos moradores da aldeia de Sinhanhe, na localidade de Napruma.

O episódio terá contribuído para agravar ainda mais a tensão entre os envolvidos e a comunidade muçulmana afectada.

Importa referir que as informações disponíveis não esclarecem de forma independente todas as circunstâncias deste incidente, nem permitem confirmar a identidade dos responsáveis.

PRM foi chamada para intervir

Relatos ainda por confirmar indicam que os alegados autores das agressões terão fugido do local e que a Polícia da República de Moçambique (PRM), proveniente da cidade de Angoche, teria sido mobilizada para intervir perante a gravidade dos acontecimentos.(Mozanorte)

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