Entre o discurso de união e as divisões: o que revela o caso Zumbo FM–TVM em Cabo Delgado?


Foto: BM

A convocatória do jornalista Pedro da Costa, da Rádio Zumbo FM, para prestar esclarecimentos no SERNIC, nesta quinta-feira na sequência de uma queixa apresentada pela jornalista Cristina Dimule, da TVM, levanta questões que vão para além do caso concreto. 

A cima de tudo, é um episódio que expõe as fragilidades de uma classe que frequentemente defende, em público, a necessidade de união, solidariedade e defesa da liberdade de imprensa, mas que, perante conflitos entre os próprios profissionais, nem sempre consegue encontrar mecanismos internos de diálogo, mediação e resolução de divergências.

No centro da polémica está a divulgação de um comunicado da Associação Desportiva de Pemba, no qual eram levantadas acusações de alegada falta de imparcialidade contra uma jornalista da TVM. Segundo a informação da Zumbo FM, Pedro da Costa não se limitou à publicação do comunicado, tendo procurado igualmente ouvir Cristina Dimule para garantir o contraditório. Ainda assim, a jornalista apresentou uma queixa contra o colega. 

É precisamente aqui que surge uma das questões que merecem debate: quando um jornalista publica uma acusação feita por uma fonte e procura ouvir a pessoa visada, onde termina o direito à informação e onde começa a responsabilidade individual do profissional pela forma como a informação é apresentada?

O caso também coloca em evidência uma possível contradição dentro da própria classe em Cabo Delgado. Ou entre o público e o privado ou qualquer coisa não está bem. 

Jornalistas e órgãos de comunicação social reivindicam frequentemente solidariedade quando um profissional é confrontado por autoridades, políticos ou outras instituições. Não devia ser o caso? Era necessário mecanismo judicial? 

Porém, quando o conflito nasce entre jornalistas, essa mesma solidariedade parece tornar-se mais difícil. Em vez de uma discussão profissional sobre ética, contraditório, direito de resposta e responsabilidade editorial, os diferendos podem acabar transferidos para instituições externas, como o SERNIC, aumentando a tensão e criando um ambiente pouco favorável à coesão da classe.

Mais do que tomar partido por qualquer dos envolvidos, o episódio deveria servir para uma reflexão colectiva: que mecanismos existem em Cabo Delgado para os jornalistas resolverem conflitos profissionais entre si antes que estes assumam uma dimensão judicial ou policial? A defesa da liberdade de imprensa não pode significar ausência de responsabilidade, assim como a defesa da responsabilidade jornalística não deve transformar-se numa forma de intimidação entre colegas. 

O desafio para a classe é construir uma cultura em que o contraditório, o direito de resposta, a ética e a crítica profissional sejam resolvidos, sempre que possível, através do diálogo e de mecanismos próprios da profissão porque uma classe que pede união perante ameaças externas também precisa de demonstrar capacidade de resolver as suas próprias contradições internamente.(MozaNorte, noticias actualizadas do norte de Moçambique)

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