Meu nome é Zacarias. Se você quer saber como foi minha vida nas matas de Macomia, senta que eu te conto.
Eu entrei em Junho de 2021.
Cheguei em Macomia e me disseram: "A vila é nossa, mas a mata não é".
E foi pra mata que me mandaram.
Nos primeiros dias em
Macomia, eu não entendia nada. A mata de Macomia é fechada, alta, você anda 10
metros e já não vê seu colega. O calor dentro é como estar dentro de uma
panela. A gente saía às 4h da manhã, quando ainda estava escuro, e só voltava quando
o sol já estava a cair.
Nós andávamos em linha.
Um atrás do outro. Ninguém falava. Só o barulho da bota na folha seca. Cada
barulho de pássaro que voava assustava. Eu tinha medo de tudo. Medo de pisar
errado, medo de me perder. Porque em Macomia, se você se perde na mata, ninguém
te acha.
O que mais me marcou em
Macomia não foi o combate. Foi o silêncio das aldeias. Entrávamos em aldeias
como Litamanda, Chai... tudo abandonado. Casas abertas, roupa no chão, machamba
cheia de milho que ninguém colheu. Eu, que sou filho de camponeses, chorava por
dentro vendo milho a estragar porque o dono fugiu.
Dormir em Macomia era
assim: você cava um buraco pequeno, deita a capulana, e dorme com a arma no
peito. Você não dorme, você cochila. Qualquer estalo você já levanta. Fiquei
meses sem tirar a bota para dormir. Meu pé ficou ferido, mas eu não podia reclamar.
Teve um dia em 2022, na
mata entre Macomia e Muidumbe, que ficamos 3 dias cercados. Sem comida. Só
tínhamos água do rio Muaguide. A gente dividia um pacote de biscoito para 5
homens. Foi ali que eu fiz uma promessa: se eu sair vivo daqui, vou honrar cada
dia da minha vida.
E Deus me ouviu.
Depois de mais de 4 anos entrando e saindo daquelas matas de Macomia, hoje em Setembro de 2026 eu saí de vez. Saí magro, com cicatriz na perna, com barba grande, mas saí vivo.
Macomia me tirou minha
juventude, mas me deu algo que ninguém me tira: hoje eu sei quem eu sou. Eu sou
Zaca

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