Por: Abel Buruhane
Em Cabo Delgado, a esperança tem aprendido a andar de cabeça baixa. Nos corredores poeirentos das escolas e nas salas abafadas dos centros de saúde, ecoa um silêncio pesado o silêncio de quem estudou, se formou, sonhou em servir o Estado, mas encontrou na porta de entrada um preço que não consta em nenhum edital.
Desde 2020 até 2025, dezenas de professores e enfermeiros formados pelos Institutos de Formação Alberto Chipande, em Pemba, pelo Instituto de Montepuez, pela ADPP e por institutos privados de saúde carregam o mesmo fardo: o diploma na mão e a vaga condicionada ao dinheiro no envelope. Para trabalhar, é preciso pagar. Para servir, é preciso subornar.
“Paguei 70 mil meticais para conseguir a vaga de professor”, contou-nos uma voz que pediu anonimato. “Nunca vi quem tratou dos documentos no Tribunal Administrativo. Apenas recebi uma guia para me apresentar numa escola do distrito de Palma.” Não houve explicação, não houve recibo, não houve justiça. Houve apenas medo e a urgência de garantir um emprego num contexto onde o desemprego é também uma forma de violência.
Segundo relatos que se repetem como um lamento coletivo, os valores exigidos variam entre 70 a 100 mil meticais. O dinheiro não passa por contas móveis, não deixa rasto bancário. É entregue em numerário, dentro de um envelope, muitas vezes nas casas dos próprios chefes de Recursos Humanos, transformadas em escritórios informais da corrupção. Ali, entre paredes cúmplices, compram-se vagas, vendem-se sonhos e destroem-se vocações.
A primeira “recompensa” para quem paga é, quase sempre, uma afetação em zonas de difícil acesso — locais onde a fiscalização raramente chega e onde a presença do Estado é frágil. A inspeção, dizem os entrevistados, “não trabalha como deve ser”. Ou não pode. Ou não quer.
Há também quem nunca consiga chegar sequer a essa fase. “Terminei o curso de enfermagem. Estou a trabalhar como voluntário num centro de saúde no distrito de Montepuez. Comeram o meu dinheiro. Até agora não tenho nomeação”, desabafa um jovem enfermeiro, com a voz ferida pela humilhação. Trabalha, atende doentes, salva vidas mas oficialmente não existe. Vive da promessa que nunca se cumpre.
Enquanto isso, outros entram facilmente no Aparelho do Estado. Não porque estudaram mais, não porque servem melhor, mas porque têm um tio, um pai, um cunhado bem colocado. Mesmo dentro dessas redes familiares, dizem, há cobrança. A corrupção não poupa ninguém: é uma máquina organizada, que se alimenta da necessidade e do medo.
Diretores, chefes de secretarias distritais, responsáveis de recursos humanos todos parecem ligados por fios invisíveis. Muitos calam-se porque precisam do emprego para sustentar as suas famílias. O sistema sobrevive do silêncio dos que têm pouco a perder e do poder dos que nunca perdem.
No fim, quem sofre é a população. Escolas sem professores motivados. Centros de saúde sem enfermeiros nomeados. Profissionais competentes transformados em voluntários eternos. Um Estado enfraquecido por dentro.
Os entrevistados deixam um apelo simples e desesperado: que os departamentos de inspeção da Educação e da Saúde façam o seu trabalho com rigor e coragem. Que procurem os malfeitores que sujam o nome de colegas honestos. Que devolvam dignidade a quem escolheu ensinar e cuidar.
Porque em Cabo Delgado, a corrupção não está apenas a roubar dinheiro. Está a roubar o futuro.

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